O chamado “rodízio de tênis” nada mais é do que alternar diferentes pares ao longo da sua semana de treinos — e, apesar de parecer exagero à primeira vista, existe bastante lógica por trás disso.
De forma simples: você não precisa ter vários tênis. Mas, dependendo do seu nível de envolvimento com a corrida, isso pode fazer bastante diferença.
Por que faz sentido ter mais de um par?
Um dos principais pontos é a variação de estímulo no corpo. Cada tênis tem uma geometria, densidade de espuma, drop e nível de estabilidade e amortecimento diferentes. Ao alternar modelos, você muda levemente a forma como o impacto é absorvido e distribuído, o que reduz a sobrecarga repetitiva nas mesmas estruturas.
Isso não é só teoria: um estudo com corredores amadores mostrou que quem alternava pelo menos dois pares teve 39% menos risco de lesões em comparação com quem usava sempre o mesmo modelo. Há algumas limitações no estudo, mas é uma hipótese plausível.
Além disso:
- Durabilidade maior: aqui temos um mito. Antigamente falava-se em alternar os tênis de corrida para a entressola “descansar” de um dia para o outro, prolongando assim sua vida útil. Porém, os materiais de entressola evoluíram muito nos últimos anos, de modo que não é mais necessário um tempo de descanso para voltar ao seu estado original. De toda forma, o rodízio distribui a quilometragem entre diferentes pares. Na prática, isso faz com que cada tênis acumule desgaste mais lentamente, aumentando o tempo total de uso do seu rodízio;
- Melhor desempenho: alguns tênis são mais adequados para corridas de curta distância e velocidade, enquanto outros são projetados para corridas mais leves e de longa distância. Ter mais de um par permite que você escolha o par mais adequado para o tipo de treino que irá fazer;
- Menos dependência de um modelo: se aquele seu tênis favorito sai de linha ou muda completamente, você não fica refém;
- Mais repertório de comparação: facilita a percepção de quando um tênis já passou do ponto de uso. Para isso, é essencial que a quilometragem semanal seja consistentemente menor entre um dos modelos, que vai se desgastar mais devagar;
- Estímulo neuromuscular: diferentes construções ajudam a trabalhar a propriocepção e a musculatura de estabilização.
Agora, um ponto importante: se você corre sempre do mesmo jeito, no mesmo ritmo, com o mesmo objetivo… talvez você realmente não precise de rodízio. Mas se seus treinos variam, seus tênis também deveriam variar.

Como montar um rodízio na prática
A lógica mais comum (e funcional) gira em torno de 3 tipos de tênis, cada um com um papel claro dentro da sua semana.
Tênis para treinos longos
Aqui existem dois caminhos principais:
- Abordagem conforto: tênis com amortecimento mais tradicional, pensados para absorção de impacto e menor desgaste muscular. Ideais para quem quer apenas cumprir o treino com conforto e boa recuperação.
- Abordagem performance: para quem está treinando visando provas (especialmente maratona), faz sentido usar modelos mais altos, com espumas mais modernas (PEBA, ATPU, TPEE) e, em alguns casos, até placa. A ideia aqui é economia muscular — terminar mais “inteiro” e recuperar mais rápido para o próximo treino.
E um ponto-chave: se você vai correr a prova com um tênis específico (principalmente com placa), ele precisa aparecer pelo menos em um longo importante do ciclo.
Tênis para intervalados, fartlek e treinos de ritmo
Esse é o momento de correr rápido, e o tênis precisa acompanhar isso.
Características principais:
- Leveza;
- Responsividade;
- Espumas com maior retorno de energia;
- Placa: opcional (ou recomendada, dependendo do nível).
Duas abordagens:
- Intermediários (200–250g): mais leves que os de rodagem, mas ainda versáteis e com uma espuma com alto retorno de energia. Boa opção para a maioria dos corredores.
- Performance (~200g ou menos): para quem busca performance mais agressiva. Aqui entram modelos com placa (carbono, nylon ou fibra de vidro) e construção mais voltada à velocidade.

Tênis para rodagens leves e regenerativos
Aqui o objetivo muda completamente: recuperar, não performar.
- Foco total em conforto e amortecimento;
- Menor preocupação com retorno de energia;
- Placa não é necessária.
Esse tipo de treino é curioso porque aproxima amadores e profissionais: dificilmente você verá um atleta de elite fazendo regenerativo com supertênis. A lógica é simples: quanto mais fácil o treino, mais amortecimento e conforto deve ter o tênis.
Contextualizando (com exemplos práticos)
Vamos trazer isso para o mundo real:
Corredor amador
Corre por saúde, sem foco em performance, sem planilha estruturada.
- Longo: Asics Nimbus ou Saucony Ride
- Intervalado: New Balance Rebel ou Olympikus Corre Turbo
- RegeneratIvo: Fila Speedrocker ou Nike Pegasus
Simples, funcional e mais do que suficiente.
Corredor amador competitivo
Treina com planilha, busca performance e RP em provas.
- Longo: Adidas Prime X ou Hoka Skyward X
- Intervalado: On Cloudmonster Hyper ou Asics Sonicblast
- Regenerativo: Brooks Ghost ou Mizuno Rider
Aqui o rodízio começa a fazer mais diferença, principalmente pela intensidade e volume de treino.
Então… quantos tênis eu deveria ter?
A resposta honesta:
- 1 tênis: resolve, especialmente para iniciantes;
- 2 tênis: já traz benefícios reais;
- 3 tênis: estrutura ideal para quem treina com variedade.
Mais do que isso? Só se fizer sentido pra você.
Use o tênis de corrida certo no treino certo
Rodízio de tênis não é obrigação, mas é uma ferramenta. Se você leva a corrida de forma mais estruturada, alternar modelos:
- Reduz o risco de lesões;
- Melhora a qualidade dos treinos;
- Aumenta a vida útil dos seus tênis;
- E te dá mais controle sobre sua evolução.
No fim, não é sobre ter mais tênis. É sobre usar o tênis certo, no treino certo. Na Velolcità, nossos especialistas ajudam você a escolher o modelo ideal para cada treino.
Referências:
MALISOUX, L. et al. Can parallel use of different running shoes decrease running-related injury risk? Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, v. 25, n. 1, p. 110-115, fev. 2015. DOI: 10.1111/sms.12154. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24286345/. Acesso em: 11 de maio de 2026.