Conheça a história de Julia Nakagawa: triatleta de 66 anos

Conheça Julia Nakagawa, uma mulher que provou que nunca é tarde para abraçar novos desafios e transformar a própria vida através do esporte. Dos 50 aos 66 anos, ela trilhou uma jornada extraordinária nos esportes, indo de uma vida sedentária a se tornar uma atleta internacional de respeito.

Neste emocionante relato, Julia nos guia por sua trajetória repleta de superações e descobertas. De uma rotina parada e desmotivada, ela se reinventou como uma “corredora do mundo”, enfrentando paisagens deslumbrantes e territórios inexplorados.

Se você já se perguntou se é tarde demais para se exercitar ou buscar novos horizontes, a história de Julia irá inspirá-lo a acreditar que a idade nunca é um obstáculo para perseguir seus sonhos!

1 – Como foi sua jornada no mundo dos esportes? O que te motivou a dar esse grande passo aos 50 anos?

Minha jornada no esporte foi curta, mas intensa! O começo foi devagar, quase parando — aliás, parada eu já estava. Fazer uma atividade física sem um objetivo me transformou numa “turista de academia”. Eu tinha o conceito errôneo de que cuidar da saúde era com o médico e academia era para quem queria ficar sarado.

Todos os anos a médica do trabalho me perguntava se eu estava fazendo alguma atividade física. Eu tinha a resposta na ponta da língua: “Doutora, eu durmo cedo, não bebo, não fumo, me alimento bem, tenho o direito de fazer NADA!”

Ela me alertava: “Você parece aquele carro novo que nunca sai da garagem, não vai pra chuva, nem na lama e nunca engatou a 5° marcha. Um dia você pode precisar de motor e ele pode falhar!”

Até que um dia meu filho foi fazer um curso de paraquedismo, fui assistir — bem mãe fiscal — e entrei para o esporte no vácuo dele. Eu achava que só um esporte com tanta adrenalina, voando a 3 mil metros de altura e a 200km/hora poderiam equilibrar a vida estressante de uma gerente de banco.

Mas como todo esporte, o paraquedismo exige uma performance física e eu não tinha força para navegar um paraquedas e nem pernas para dar um sprint no pouso.

Voltei para academia, malhei, puxei ferro, fiquei forte e por quase 8 anos saltei 151 vezes pelos céus do Brasil e dos EUA!

Casal pulando de paraquedas

Um aprendizado que o paraquedismo trouxe para a minha vida: “Coragem não é a ausência do medo, é o domínio dele!” Como dominar o medo? Através do conhecimento dos riscos e não só dos prazeres.

E foi no ambiente de academia que eu entrei para a corrida, quando faltou um corredor num revezamento. Logo veio o gosto pelo montanhismo e com 60 anos eu ingressei no Triathlon.

2 – Enfrentar maratonas aos 54 anos pode ter sido um desafio. Você lidou com situações de discriminação etária nesses últimos anos?

Era comum nas competições de ter só eu na minha faixa etária +55 ou +60 e as premiações só aconteciam se houvesse pelo menos 3 atletas do mesmo grupo de idade.

Comecei a reclamar aos organizadores e também pedir que a premiação começasse pelos mais idosos, pq no final ficavam apenas uns gatos pingados para assistir. Isso mudou também — respeito à terceira idade!

Qual foi sua maior superação?

Sem dúvidas, a minha maior superação foi concluir a minha primeira maratona, mesmo depois de uma falha no planejamento, interpretação incorreta das informações, despreparo físico e mental e uma nutrição inadequada.

Eu e outra amiga, também iniciante na corrida, estávamos na Noruega e decidimos correr metade da Maratona. Vimos no mapa a figurinha de carro no km 21 e achamos que seria um táxi e um desenho de uma estação de trem.

Quando chegamos lá perguntamos pelo taxi e eles riram de nós “Vcs sabem que estão participando da Maratona da Grande Floresta da Noruega?”. Era uma corrida de aventura, passando por riachos, lama e não podíamos sair da trilha nem para chegar na estação de trem a menos de 1km dali. Os carrinhos que vimos no mapa eram a ambulância e o Bombeiros.

Só nos restou completar os 42 km andando e trotando! Mais sorte que juízo! Pra quem ia ser desclassificada da corrida, saímos com uma medalha de maratonista!

3 – Manter a motivação em longo prazo pode ser desafiador para alguns atletas. Quais são suas estratégias para se manter focada e comprometida com seus objetivos esportivos?

Minha estratégia de longo prazo para esse percurso chamado VIDA, é respeitar e aceitar as limitações da minha idade e do meu corpo: hoje não tenho mais joelhos para correr uma maratona, nem reflexos para o paraquedismo.

Amanhã — num futuro bem distante, espero — quando eu não puder mais correr, vou pedalar, se não der, vou nadar ou fazer hidroginástica. Enfim, quero me manter ativa como minha mãe que aos 88 anos vai 3 x por semana para a academia!

4 – A prática de yoga e meditação parece desempenhar um papel importante em sua rotina. Como essas disciplinas ajudam a manter seu corpo e mente em equilíbrio durante os treinamentos e competições?

Em abril desse ano fui para um Retiro de Meditação e Yoga na Tailândia. Uma semana sem internet, luz elétrica, isolados num paraíso e que me preparou para um grande desafio que foi o Mundial de Triathlon no mês de Julho.

Vista de uma mulher de costas praticando yoga em frente a uma paisagem na Tailândia.

Meu ritual é meditar na noite anterior da competição e uns minutos antes da prova, fazer o “pranayama” o exercício da respiração.

A yoga e meditação entraram na minha vida na tentativa de perder o medo do mar. Eu não botava muita fé não, pq achava que eu não precisava de “calma” e sim de “coragem”!

Porém, os benefícios da meditação e da yoga transcenderam ao corpo, trouxeram uma leveza na alma que sou capaz de sentir mesmo quando as coisas fogem do meu controle.

E falando em “fugir do meu controle”, durante o pico da pandemia, fiquei internada por 30 dias por causa de uma apendicite que se agravou, fui submetida a três cirurgias e me deparei com a finitude da vida.

Lembrei-me da médica do trabalho que insistia todos os anos: “carro novo que nunca sai da garagem, quando precisar do motor pode falhar”. Meus motores como o coração, rins e pulmões suportaram bem a esse acidente de percurso. O esporte me salvou!

5 – Você já enfrentou algum momento de lesão ou desafio físico que impactou sua jornada no esporte? Como foi sua recuperação?

Sim, recentemente. Três meses antes do Mundial de Triathlon, com a inscrição feita e passagens compradas. Tive uma lesão no joelho, a temida tendinite pata de ganso. Cheguei a pensar na despedida do Triathlon, aquela sensação de “morrer na praia”.

A partir daí tive minha planilha de treinos alterada, um aumento dos treinos de força e a corrida foi substituída pela natação e por fisioterapia intensiva. Deu certo, não terminei a prova em Hamburgo no tempo desejado, mas foi o melhor de mim!

6 – Como você se sentiu ao representar o Brasil no mundial de triathlon, na Alemanha? Você diria que esse foi um dos momentos mais emocionantes e gratificantes em sua jornada esportiva até agora?

Sem dúvida, foram momentos de felicidade plena, fazer parte da seleção brasileira de Triathlon, representar o país na categoria +65 anos! O maior evento de Triathlon do Mundo, com 10 mil participantes em 4 dias de competição e milhares de voluntários trabalhando para facilitar a nossa vida!

Estar com os melhores triatletas do mundo, ver as triatletas com mais 80 anos nadando, pedalando e correndo me deu esperança de continuar no Triathlon por mais umas décadas!

Mulher completando uma porva de Triathlon

Nessa competição, ficou evidente como eu curto o esporte!

Procurei comprar as fotos com o numeral do peito e apareceram só 9 fotos; procurei pelo reconhecimento facial apareceram mais 10; resolvi sorrir no reconhecimento facial e vieram QUARENTA fotos!

Até na natação, que é a minha modalidade mais tensa, eu estava sorrindo!

Essa alegria eu compartilho com todos que torceram e vibraram comigo, aos meus companheiros de treino da madrugada, a todos os profissionais que me apoiaram como a Assessoria XPA, fisioterapeutas, médicos, nutricionista e a Deus, que me permitiu chegar até aqui!

7 – Além dos benefícios físicos, quais mudanças positivas o esporte trouxe para sua vida pessoal e emocional?

Vou separar os benefícios em seções, pois são muitos.

  • Aspecto profissional: foi uma evolução na minha vida profissional, pois passei a trabalhar por menos tempo e com a mesma produtividade — e ainda treinava!
  • Benefícios físicos: eu estava com a cirurgia para varizes marcada que deixou de ser necessária. A osteopenia (perda de massa nos ossos) regrediu. Além disso, nunca mais tive crises de labirintite.
  • Vida Pessoal: o esporte aumentou a minha rede de amigos e network, me transformou numa cidadã do mundo e me levou a conhecer mais de 50 países. Eu, literalmente, corri pelo mundo. Participei de mais de 50 corridas, entre elas duas maratonas e de 22 meias-maratonas.

8 – Você pode mencionar alguns dos lugares que conheceu participando de maratonas?

Ter desafios a superar ou uma beleza a apreciar me estimulavam a participar de provas:

  • Correr no deserto do Sahara, o deserto mais quente do mundo;
  • Correr no Fim do Mundo – Ushuaia na Patagônia Argentina, experimentar o gelo e a neve;
  • Vale Sagrado dos Incas no Peru, manter o fôlego a 4 mil metros de altura;
  • Correr a Meia Maratona do Kilimanjaro, com milhares de africanos, depois de descer a montanha mais alta da África;
  • Conhecer os canais de Amsterdã correndo;
  • Sentir as rajadas de vento de Punta del Este.
  • Conhecer o Brasil: Fernando de Noronha (PE), Florianópolis, Bombinhas (SC), Rio de Janeiro (RJ), Bonito (MS), Foz do Iguaçu e Curitiba (PR).

O pódio era o de menos, a cada paisagem interessante eu parava para tirar uma foto.

Meu único pódio em provas off-road (minha preferência) foi a do Deserto do Sahara, porque era só dunas então parei só uma vez quando encontrei uns tuaregues (nômades do deserto).

Em 2016 comecei na fase montanhista! Depois de muito preparo e treino, parti para a África escalar o Monte Kilimanjaro, montanha mais alta do continente, com 5.895m.

Vista de uma corredora em frente uma placa com a bandeira do Brasil na Meia Maratona do Kilimanjaro na africa.

Sempre tento conciliar viagens com algum pico ou montanha, foi assim no Peru onde subi o Wayna Picchu (2.667 m), e no Butão, onde subi até o Monastério Budista do Ninho do Tigre (3.200 m), na Alemanha um trekking pela Saxônia Suíça.

9 – O que você diria para as mulheres que acreditam que é tarde demais para começar a se exercitar ou buscar novos desafios?

Independente da idade, todos temos os nossos sonhos: viajar, dançar na formatura do filho ou no casamento da filha, brincar com os netos, cuidar dos pais, não dar trabalho e nem depender dos outros — para tudo isso precisamos de saúde! O exercício físico é o caminho que nos leva a hábitos saudáveis, como alimentação, sono, socialização.

E os desafios não precisam ser grandiosos como correr uma maratona ou subir uma montanha, são pequenos e constantes desafios: combater a preguiça, a procrastinação, trocar o refrigerante por um suco, deixar o carro na garagem e caminhar.

Está comprovado: esses pequenos hábitos reduzem em 30 % a incidência do câncer e 90% das doenças podem ser evitadas.

Que o ditado “O importante é ter saúde!” não seja apenas uma frase consoladora, mas sim a nossa meta diária!

Se você se viu motivado por essa narrativa repleta de coragem e perseverança, saiba que o primeiro passo em direção à sua própria jornada está ao seu alcance. Siga @julia_nakagawa no Instagram para acompanhar mais de perto a história dessa mulher inspiradora!

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Velocità

Autor: Velocita